A GARAGEM COMO ABRIGO DISCURSIVO DO SUJEITO-EMPREENDEDOR
Ramon Sartori, Ricardo Antonio Marini
Resumo
O presente artigo parte do arcabouço teórico-metodológico da Análise do Discurso para desvelar as condições de produção do Mito da Garagem, um repetível que se verifica no discurso de fundação de diversas das maiores empresas do ramo da tecnologia. A análise das condições de produção nas quais o Mito da Garagem surge e se reproduz leva à constatação de que este se encontra intimamente ligado a uma formação discursiva de matriz liberal, a qual enfatiza a atuação individual do sujeito-empreendedor em detrimento do papel da estrutura social para o surgimento de gigantes como Amazon e Apple. Na sequência, aproxima-se a conceituação antropológica de mito à Análise de Discurso e afirma-se que o mito seria uma prática discursiva “sui generis”, em virtude de seu excepcional grau de atravessamento ideológico e pela função de fornecer legitimidade para uma determinada conformação social. Ademais, no exame da influência e circulação do Mito da Garagem no Brasil, constata-se que a ideologia veiculada pelo supracitado mito fundamenta a alteração semântica do vocábulo “CLT”, o qual ganha conotação extremamente negativa entre os jovens usuários das redes sociais. Conclui-se que as redes sociais, operadas justamente por empresas que mencionam o Mito da Garagem em sua genealogia, podem ser consideradas um dos mais importantes Aparelhos Ideológicos de Estado na contemporaneidade, progressivamente assumindo a centralidade atribuída por Althusser à escola quando da publicação de “Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado”.
Palavras-chave
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Submitted date:
02/09/2026
Accepted date:
03/16/2026
